Avancini fala sobre estreia: “Projeto grandioso”

Diretor é o responsável por “Nada a Perder”, longa sobre Edir Macedo

Pode-se dizer que Alexandre Avancini é um privilegiado. Filho do diretor Walter Avancini, o diretor de Os Dez Mandamentos sempre conviveu com atores e atrizes na sala de estar de sua casa. Aos três meses, foi apresentado ao Brasil no programa de TV apresentado por Hebe Camargo.

Desde criança acompanhou o pai em gravações de novelas. Muito cedo começou sua trajetória na televisão. Passou por todas as etapas do processo de produção de uma telenovela até chegar ao cinema, sua grande paixão.

— Tem uma coisa engraçada: já trabalhei com todos os grandes atores do cinema brasileiro.

Avancine falou ao R7 sobre a carreira, referências nas telonas e, claro, sobre seu novo desafio: a direção de Nada a Perder, filme sobre a vida do bispo Edir Macedo, adaptado do livro homônimo, que tem estreia prevista para 2018. 

R7 — Sua trajetória é muito forte na TV, vem de berço. Gostaria que você comentasse sua carreira.

Alexandre Avancini — Comecei a frequentar as gravações ainda criança — meu pai foi meu grande mestre. Eu frequentava sets de filmagens com 7 ou 8 anos de idade. Eu vi, por exemplo, a cidade cenográfica de Gabriela Cravo e Canela (1983). Todo esse processo começou a despertar em mim o interesse por esse universo. Meu pai fazia uma coisa pouco comum nos anos 1970, ele pegava emprestado os projetores da TV Tupi, na época, e levava para ver os filmes em casa. Meu primeiro contato com o cinema foi com 5 ou 6 anos de idade — e é importante falar de cinema porque foi o cinema que me levou para a televisão. Eu assistia escondido filmes como os do Hitchcock, que eram proibidos para a minha idade. Meu pai exibia os filmes numa tela em casa com o projetor de 16 mm e eu ficava atrás de uma poltrona escondido vendo os filmes. Esse foi o meu primeiro contato com uma telona. Mais tarde, meu pai contou que sabia da minha traquinagem, mas não podia falar nada, afinal, eu não poderia estar ali. Mas ele deixava.

“Meu primeiro contato com o cinema foi com 5 ou 6 anos de idade”

R7 — Sempre teve o amor pelo cinema, mas você começou na TV.
Avancini — 
Eu fui para a TV Globo em 1984, onde tinha todo o instrumental. Mas não entrei pela janela, comecei como operador de máquina em estúdio, depois fui editor de VT (videotaipe), o que foi muito importante na minha formação. Quando vou filmar, a cena já está montada na minha cabeça. Fui por muitos anos editor e assistente de direção para chegar ao cargo de diretor de TV. Fiz parcerias com Dennis Carvalho e Ricardo Waddington, fui assistente dos dois. Depois, com o Ricardo, estabelecemos parcerias de codireção de vários projetos de sucesso, de várias novelas do Manoel Carlos. Eu sou um diretor que se dá bem com os autores, fiquei amigo do Maneco, do Carlos Lombardi. Meu primeiro trabalho como diretor geral foi na novela Kubanacan (2003). Também estabelecemos parcerias em outros projetos, acho o texto dele inovador.

R7 — Como foi sua trajetória na Record TV?
Avancini — 
A Record apareceu com uma proposta artística muito interessante e assumi com total liberdade para tocar os meus projetos. A primeira novela que fiz foi Prova de Amor (2005), um dos maiores sucessos da emissora, fechou com 15 pontos de média a novela inteira, chegando a picos de 25 ponto no final. Também fiquei muito amigo dos autores, o Tiago (Santiago), o Marcílio (Moraes) de Vidas Opostas(2006)que foi um grande sucesso. Fizemos a Lei e o Crime (2009), que ficou na frente da Globo em vários episódios. Voltei com o Tiago na trilogia Mutantes(entre 2007 e 2009), que foi um grande sucesso de público e de Ibope. Depois encontrei a Vivian de Oliveira e a parceria com os bíblicos. Quando vi que gravariam José do Egito (2013), pedi ao meu chefe para participar. Sempre gostei do épico, das cenas grandiosas. José do Egito está sendo reprisada nos Estados Unidos e é o programa de língua hispânica mais visto lá. O núcleo dos bíblicos é um espaço onde as pessoas não estão tão acostumadas a transitar. Não têm muitos filmes e, modéstia à parte, a Record TV faz muito bem. O sucesso não é à toa, apesar dos adversários nos criticarem. O volume de espectadores é muito grande. Recentemente, vi uma pesquisa que no dia da abertura do Mar Vermelho em Os Dez Mandamentos (2015) tivemos algo em torno de 21 milhões de espectadores nos Estados Unidos. Para os padrões brasileiros é muito grande, para os padrões americanos é excepcional. Minha parceria com a Record TV tem dado muito certo. Do meu lado, artisticamente, e para a empresa também teve grande resultado de público.

“O núcleo dos bíblicos é um espaço onde as pessoas não estão tão acostumadas a transitar. Não têm muitos filmes e, modéstia à parte, a Record TV faz muito bem”

R7 — Como é a influência do seu pai no seu trabalho, no aspecto profissional?
Avancini — 
Meu pai é meu exemplo, mas todo o meu processo de direção sempre foi baseado no cinema. Por exemplo, na Globo eu era o diretor especialista em externas (cenas gravadas fora do estúdio), em fazer cenas de ação. Eu adoro fazer grandes eventos, sempre tentando fazer algo diferente, um ângulo novo. O cinema é imagem e ação, motion picture. Eu sou um diretor de motion picture, uma ação vale mais que mil palavras. Eu combato um pouco o tipo de roteiro que você só tem diálogo, as pausas, o diálogo interno é fundamental. Não precisa falar “estou triste”, “estou feliz”. Você vê o ator e coisas muito mais sofisticadas do que isso. O Brasil ainda trabalha na questão radiofônica do roteiro que explicita tudo. Na relação de imagem, busco sempre um approach mais cinematográfico e me preocupo muito com a direção de ator. Não adianta ter uma roupa maravilhosa se o ator não está com o personagem. Acho que a gente não pode minimizar essa relação entre o ator e o personagem. Quando investe na preparação do ator, isso reflete de uma forma muito forte na tela.

R7 — Mas você cresceu nesse universo da TV…
Avancini — 
A grande vantagem do diretor de televisão é trabalhar todos os dias, todos os anos. Tem uma coisa engraçada: já trabalhei com todos os grandes atores do cinema brasileiro. Um diretor que estava começando na TV… trabalhei com Fernanda Montenegro, Antonio Fagundes. Já tenho um tipo de relação… até pelo meu pai. Quando comecei como assistente na televisão, as pessoas perguntavam “Quem é ele”? “Ele é o filho do Avancini”. “Ah! Você é o filho do Avancini! Eu te conheci desse tamanho, eu te peguei no colo”. E era verdade, me lembrava desses momentos. Todos frequentaram minha casa. Cria uma certa cumplicidade, não era um estranho. Meu pai me levou ao programa da Hebe Camargo quando eu tinha três meses de vida para me apresentar. Uma vez filmei com a Regina Duarte e ela foi madrinha de casamento do meu pai. Tinha o peso, mas como havia conexão, tudo foi mais fácil.

R7 — E no cinema? Quais foram as suas grandes referências? Os diretores que mais influenciaram?
Avancini — 
Eu tenho um leque de grandes diretores que admiro. Stanley Kubrick é o diretor que me fez querer fazer cinema. Um dia eu acordei e meu pai disse: “Está passando um filme que você não pode perder, tem de ver lá na Tijuca”. Fomos de ônibus para assistir 2001 — Uma Odisseia no Espaço (1968) e esse filme me impactou muito e até hoje é um dos meus preferidos. Um filme que quase não tem diálogo. O impacto visual é muito grande. O filme que mudou uma geração, influenciou muitos cineastas. Kubrick e Akira Kurosawa inventaram linguagens de cinema. Orson Wells, Luchino Visconti, Federico Fellini, posso citar todos os clássicos, os grandes mestres. Eu ia à cinemateca, não tinha videocassete, ficava marcando no jornal quando passaria um filme desses diretores, era o meu prazer. O Brasil é muito órfão da cultura do cinema. Eu via pela televisão mesmo, de madrugada. Ficava acordado até duas horas da manhã para ver o Corujão. Era o meu divertimento. Dos diretores recentes, contemporâneos, um que eu admiro muito e tento seguir é o David Fincher. Tento seguir a narrativa como a preocupação com os atores. Fincher chega a filmar a mesma cena 100 vezes! Eu brinco com o meu elenco: “Gente, vamos uma vez fazer a mesma cena 100 vezes só para ver como fica?”.

“O Brasil é muito órfão da cultura do cinema”

R7 — Como foi a experiência de Os Dez Mandamentos?
Avancini — 
Em Os Dez Mandamentos, que foi um sucesso, fizemos uma coisa inédita: ensaiamos só com o elenco uma semana antes no cenário. Algo muito raro em TV. E a novela ganhou o cinema, o que só foi possível porque foi gravado com esse olhar. O roteiro de televisão é diferente do roteiro de cinema, é difícil adaptar porque tem outro desenho de andamento das cenas. Um episódio em cinema tem de passar muito mais conflitos e conteúdo no seu tempo. Foi um projeto vitorioso. Mas não foi a minha estreia no cinema. É uma novela muito bem-feita, com um aparato técnico todo de cinema, o que possibilitou sua exibição na telona. Sem medo algum digo que a parte técnica da nossa novela para o cinema ficou melhor do que muito filme por aí. Usamos as lentes de cinema, as câmeras todas. E fiquei muito feliz com o resultado da transição. Foram seis mil fitas do original para fazer essa remontagem, um processo bem trabalhoso e que valeu a pena. O filme Os Dez Mandamentos foi um grande sucesso, a novela continua arrebentando.

A novela também fez surgir algo novo na televisão brasileira: o universo dos fãs. Os figurantes iam aos shoppings usando camiseta: Eu sou figurante de Os Dez Mandamentos. Aqui a gente não tem essa cultura. As pessoas iam ao cinema assistir ao filme caracterizados com os personagens.

Para mim, Os Dez Mandamentos foi a melhor experiência de parceria com uma empresa de televisão. Saí faltando dois meses para acabar Pecado Mortal(2013) para começar a planejar a nova novela. Fui em novembro de 2014 para Los Angeles para fazer o storyboards de várias cenas que só foram exibidas em novembro do ano seguinte. A Record entendeu a importância de fazer as sequências no exterior. Não daria tempo de fazer a novela e gravar a abertura do Mar Vermelho e a destruição da capital egípcia. Foi uma aposta e valeu a pena. José do Egito, vamos filmar no Nordeste? Vamos orçar no Atacama? Mesmo valor, então vamos para o Atacama. Eu estive em Israel e no Egito e o Atacama é muito parecido.

R7 — Oficialmente Nada a Perder é o seu primeiro trabalho no cinema. Como está sendo esse processo, uma vez que serão dois filmes?
Avancini — 
É um trabalho de fôlego, novamente estamos fazendo coisas inéditas. Primeira vez na história brasileira que se faz dois filmes ao mesmo tempo, não me recordo de alguém que tenha feito isso. É um processo muito longo, são quatro meses de filmagens. É um projeto grandioso, um épico. A gente tem um volume que normalmente o cinema nacional não tem. Fomos para a rua gravar com 1.200 figurantes, com 30/40 veículos de cena, carros e ônibus de época. Os filmes vão de 1950 a 2014, um período muito longo. Usamos trem de época da década de 50. Elementos que reforçam a questão épica da narrativa do filme.

R7 — Também é um dos filmes com um dos orçamentos mais altos do cinema nacional.
Avancini — 
Sem sombra de dúvida. Não posso falar da questão orçamentária, mas certamente é um dos mais altos porque são dois filmes e para serem viáveis eles têm de ter esse tipo de orçamento. O volume de figuração é grande, vamos usar ao longo dos filmes cerca de 8 mil figurantes, mil veículos e isso tem um custo alto. As locações são todas muito específicas. Todos os personagens passam por um processo de envelhecimento. A Beth Goulart que vive a mãe do bispo, dona Geninha, começa com 40 e vai até 80 anos.

R7 — Como foi a preparação para fazer o filme?
Avancini — 
O roteiro foi escrito com base nos livros, está muito fiel. Tivemos acesso a muito material que a família nos cedeu. Fomos atrás dos detalhes. O Petrônio está impressionante na caracterização e interpretação do Bispo Edir Macedo. Leu muito, se empenhou muito. A Dai Mesquita também. O tempo de preparação não foi gigante para dois filmes, foi até apertado, mas a equipe é muito guerreira.

“Nunca pesou para mim carregar o nome do meu pai. Meu pai foi um gênio e o melhor diretor de televisão de todos os tempos”

R7 — Os atores costumam elogiar sua delicadeza ao dirigir as cenas. Existe uma relação de reciprocidade entre vocês?
Avancini — 
Eu sou tranquilo, mas também pertenço a outra geração. Meu pai, inclusive, era muito bravo. Eu nunca o vi gritando com alguém, mas ele era muito exigente. As técnicas eram outras, existia um propósito de desestruturar o ator emocionalmente para chegar onde queria. Vou por outro caminho. Antes de começar, marco reunião com os atores e converso por horas e eles abrem questões muito particulares, mas que eu preciso saber. É um trabalho de manipulação do diretor, sim. Às vezes, eu chego do lado do ator, falo uma palavrinha e a emoção vem, a cena rola. É preciso preparar o ator para coisas básicas. Um casal romântico, primeiro dia de filmagem, os atores não se conhecem, chegam ao set e tem de se beijar. Existe todo um trabalho de aproximação física também.

R7 — E para você, o que pesa mais: carregar o sobrenome do seu pai ou fazer um filme do dono da emissora?
Avancini — 
Nenhum dos dois. Nunca pesou para mim carregar o nome do meu pai. Meu pai foi um gênio e o melhor diretor de televisão de todos os tempos. Não teve igual e não terá outro igual. Não tento me comparar a ele, não sou gênio. Sou um diretor esforçado, trabalhador, mas não me comparo. Ele fez um filme de muito sucesso que foi o Boca de Ouro (1963). Se tivesse feito mais cinema teria sido um gênio em cinema. E com relação ao filme do bispo é a mesma questão. Contamos a história de um grande homem, um grande brasileiro que eu admiro. Estou dando o meu máximo como faço em todos os processos. Graças a Deus esses fardos eu não levo, sou muito bem resolvido.